A piada é velha. Mas tem total aplicação. Conta-se que certa feita um palestrante perguntou a um ex-professor que convidara para ver uma palestra que iria proferir que ele havia achado de sua fala. Ao que ele responde “você disse coisas interessantes e novas. Pena que as novas não eram interessantes e as interessantes não eram novas.” A maior parte das críticas feitas a Kant sofrem desse mal. Uma grande parte das críticas são feitas no estilo “Bom, desde Heidegger sabemos que...” ou então “a pós-modernidade mostrou que...”. Mas,de uma maneira geral, as criticas feitas pela Dona pós-modernidade, já tinha sido feitas há um pouco mais tempo: pelos contemporâneos de Kant. E elas não ficaram sem resposta. Goethe chegou a afirmar que era isso que mais o admirava no “velho” Kant: seus adversários jamais tinham como resposta o silêncio. E o melhor exemplo disso é o escrito “sobre a expressão corrente isso pode ser correto na teoria mas nada vale na prática”,onde responde com ênfase a certas críticas feitas na época por um certo senhor Garve. Também boa parte de seus escritos sobre filosofia da história foram, em grande parte, respostas a seu ex-aluno Herder.
Ocorre que, como boa parte dos críticos de Kant nunca leu Kant, eles não sabem que essas críticas já foram rebatidas pelo próprio mestre. E repetem-se velhas objeções sem a menor consistência. Eles não sabem que as objeções, anunciadas como o ar “agora eu te peguei”, já haviam sido feitas há mais de 200 anos, bem como respondidas. Nesse contexto de caos e insanidade ganhou fama um trecho de uma palestra de Ariano Suassuna ( ver http://br.youtube.com/watch?v=48gOatpfIIw) em que ele diz que era fácil para Kant dizer que um copo não é um copo, mas queria ver Kant dizer na frente de uma onça”. Vá la. Tem certa graça.Tanto que a platéia riu bastante. Mas só tem graça para quem não sabe o erro crasso em que Ariano ocorreu. É a velha história de que Kant teria “criado o relativismo”.Ora, contra esse pensamento gostaria de citar duas passagens de dois autores insuspeitos: Searle e Merleau-Ponty:
Afirma Searle:
Os ataques ao realismo externo não são novidade. Eles existem há muitos séculos.Talvez o mais famoso seja a alegação de Berkeley de que aquilo em que pensamos como objetos materiais são na verdade, apenas conjuntos de “idéia”, isto é, estados de consciência. E de fato, esta tradição chamada de “idealismo” ou de fenomenismo, ainda persiste no século XX. (...) Provavelmente o idealista mais influente de todos os tempos foi Georg Friedrich Hegel. O princípio básico do idealismo é que a realidade, no final de contas, não é uma questão de algo existir independente de nossas percepções e de outras representações. Em vez de pensarmos que nossas afirmações da verdade dependem da de uma realidade que existe de forma independente, fazemos com que a realidade dependa de nossas próprias representações. Acredito que a posição mais sofisticada da posição idealista pode ser encontrada da filosofia de Immanuel Kant que acreditava que pensava que aquilo que chamava de “mundo fenomenal” (...) consistia inteiramente em nossas representações (...) A diferença entre Kant e outros idealistas como Berkeley é que os outros pensavam que as aparências – ou como Berkeley as chamava “idéias” – são a única realidade, enquanto pensava que, além das aparências, existe por trás das aparências uma realidade das coisas em si, da qual não podemos ter nenhum conhecimento. [1]
A segunda posição que gostaríamos de expor é a do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Ponty afirma, comentando Kant, que:
(...) se existem apenas fenômenos humanos, não há mais nada que possa servir como termo de referência. Esse relativismo se tomado a sério acaba por inverter-se. Esses fenômenos, aos quais tenho acesso, são uma construção, mas esta não é arbitrária.[2]
Quer dizer, de uma maneira ou de outra, ambos distanciam Kant do relativismo total em que nos encontramos hoje. Ao revés. A obra kantiana possui bons argumentos contra ela, como uma leitura de crítica da razão prática deixa claro.
Aliás, isso é uma coisa curiosa: metade dos críticos de Kant o acusa de instaurar o relativismo. A outra metade o acusa de um excesso de formalismo que o impedia de ver as “múltiplas possibilidades de verdade que o mundo dispõe”. Proponho uma arena com as duas correntes. Quem sabe assim elas não se esmagam com seus argumentos superficiais?
O que choca é a seriedade com que uma frase tão batida e tão errada do ponto de vista epistemológico vem sendo levada tão a sério. Claro que há certo viés estratégico: é mais fácil falar uma gracinha qualquer (com chance de ganhar risos do ouvinte e fazer crer ao interlocutor que você sabe alguma coisa sobre Kant) do que passar horas lendo Kant de verdade com risco de entender muito pouco. Já vi a frase citada em horas inesperadas e inadequadas. Citar essa frase em artigo acadêmico, por exemplo, é a mesma coisa que citar uma frase de Renato Aragão sobre fenomenologia do espírito. “ô da poltrona, saí dessa leseira e vamos discutir a noção de totalidade em Hegel! ”Ou então” vamos entrar nesse mundo de luzes e cores que é a dialética hegeliana”. Não combina. Não que artistas não possam fazer bons diagnósticos sobre filósofos.Pelo contrário. Fernando Pessoa tem uma profunda relação com a obra kantiana, por exemplo,como podemos ver em alguns poemas (Entre Kant e Hegel alguma coisa se perdeu, afirmaria seu heterônimo Álvaro de Campos). André Ordoñez mostrou com maestria essa relação em Fernando Pessoa: Um místico sem fé. Mas há uma diferença enorme entre o maior poeta de todos os tempos e uma dramaturgo mediano. Ali, Ariano, tentando parecer ser engraçado, foi apenas um palhaço bufão de quinta categoria. Não é preciso insistir muito na falta de conhecimento filosófico de Suassuna. A frase dele, tão engraçada quanto certa cenas de A turma do Didi, mostra por si só.
Ocorre que, como boa parte dos críticos de Kant nunca leu Kant, eles não sabem que essas críticas já foram rebatidas pelo próprio mestre. E repetem-se velhas objeções sem a menor consistência. Eles não sabem que as objeções, anunciadas como o ar “agora eu te peguei”, já haviam sido feitas há mais de 200 anos, bem como respondidas. Nesse contexto de caos e insanidade ganhou fama um trecho de uma palestra de Ariano Suassuna ( ver http://br.youtube.com/watch?v=48gOatpfIIw) em que ele diz que era fácil para Kant dizer que um copo não é um copo, mas queria ver Kant dizer na frente de uma onça”. Vá la. Tem certa graça.Tanto que a platéia riu bastante. Mas só tem graça para quem não sabe o erro crasso em que Ariano ocorreu. É a velha história de que Kant teria “criado o relativismo”.Ora, contra esse pensamento gostaria de citar duas passagens de dois autores insuspeitos: Searle e Merleau-Ponty:
Afirma Searle:
Os ataques ao realismo externo não são novidade. Eles existem há muitos séculos.Talvez o mais famoso seja a alegação de Berkeley de que aquilo em que pensamos como objetos materiais são na verdade, apenas conjuntos de “idéia”, isto é, estados de consciência. E de fato, esta tradição chamada de “idealismo” ou de fenomenismo, ainda persiste no século XX. (...) Provavelmente o idealista mais influente de todos os tempos foi Georg Friedrich Hegel. O princípio básico do idealismo é que a realidade, no final de contas, não é uma questão de algo existir independente de nossas percepções e de outras representações. Em vez de pensarmos que nossas afirmações da verdade dependem da de uma realidade que existe de forma independente, fazemos com que a realidade dependa de nossas próprias representações. Acredito que a posição mais sofisticada da posição idealista pode ser encontrada da filosofia de Immanuel Kant que acreditava que pensava que aquilo que chamava de “mundo fenomenal” (...) consistia inteiramente em nossas representações (...) A diferença entre Kant e outros idealistas como Berkeley é que os outros pensavam que as aparências – ou como Berkeley as chamava “idéias” – são a única realidade, enquanto pensava que, além das aparências, existe por trás das aparências uma realidade das coisas em si, da qual não podemos ter nenhum conhecimento. [1]
A segunda posição que gostaríamos de expor é a do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Ponty afirma, comentando Kant, que:
(...) se existem apenas fenômenos humanos, não há mais nada que possa servir como termo de referência. Esse relativismo se tomado a sério acaba por inverter-se. Esses fenômenos, aos quais tenho acesso, são uma construção, mas esta não é arbitrária.[2]
Quer dizer, de uma maneira ou de outra, ambos distanciam Kant do relativismo total em que nos encontramos hoje. Ao revés. A obra kantiana possui bons argumentos contra ela, como uma leitura de crítica da razão prática deixa claro.
Aliás, isso é uma coisa curiosa: metade dos críticos de Kant o acusa de instaurar o relativismo. A outra metade o acusa de um excesso de formalismo que o impedia de ver as “múltiplas possibilidades de verdade que o mundo dispõe”. Proponho uma arena com as duas correntes. Quem sabe assim elas não se esmagam com seus argumentos superficiais?
O que choca é a seriedade com que uma frase tão batida e tão errada do ponto de vista epistemológico vem sendo levada tão a sério. Claro que há certo viés estratégico: é mais fácil falar uma gracinha qualquer (com chance de ganhar risos do ouvinte e fazer crer ao interlocutor que você sabe alguma coisa sobre Kant) do que passar horas lendo Kant de verdade com risco de entender muito pouco. Já vi a frase citada em horas inesperadas e inadequadas. Citar essa frase em artigo acadêmico, por exemplo, é a mesma coisa que citar uma frase de Renato Aragão sobre fenomenologia do espírito. “ô da poltrona, saí dessa leseira e vamos discutir a noção de totalidade em Hegel! ”Ou então” vamos entrar nesse mundo de luzes e cores que é a dialética hegeliana”. Não combina. Não que artistas não possam fazer bons diagnósticos sobre filósofos.Pelo contrário. Fernando Pessoa tem uma profunda relação com a obra kantiana, por exemplo,como podemos ver em alguns poemas (Entre Kant e Hegel alguma coisa se perdeu, afirmaria seu heterônimo Álvaro de Campos). André Ordoñez mostrou com maestria essa relação em Fernando Pessoa: Um místico sem fé. Mas há uma diferença enorme entre o maior poeta de todos os tempos e uma dramaturgo mediano. Ali, Ariano, tentando parecer ser engraçado, foi apenas um palhaço bufão de quinta categoria. Não é preciso insistir muito na falta de conhecimento filosófico de Suassuna. A frase dele, tão engraçada quanto certa cenas de A turma do Didi, mostra por si só.
No fim das contas, se tivermos alguma dúvida sobre Kant, melhor que recorrer a Suassuna é recorrer ao seu personagem João Grilo. Com sua esperteza peculiar ele talvez faça um comentário mais profundo que seu criador. Ou quem sabe ao mentiroso Chicó, que dirá que uma vez teve com Kant sim, e ao ser perguntando "como", dirá " não sei, só sei que foi assim"...tão maroto quanto seu criador.
