sábado, 24 de janeiro de 2009

Dúvidas sobre Kant? Pergunte ao Chicó!!


A piada é velha. Mas tem total aplicação. Conta-se que certa feita um palestrante perguntou a um ex-professor que convidara para ver uma palestra que iria proferir que ele havia achado de sua fala. Ao que ele responde “você disse coisas interessantes e novas. Pena que as novas não eram interessantes e as interessantes não eram novas.” A maior parte das críticas feitas a Kant sofrem desse mal. Uma grande parte das críticas são feitas no estilo “Bom, desde Heidegger sabemos que...” ou então “a pós-modernidade mostrou que...”. Mas,de uma maneira geral, as criticas feitas pela Dona pós-modernidade, já tinha sido feitas há um pouco mais tempo: pelos contemporâneos de Kant. E elas não ficaram sem resposta. Goethe chegou a afirmar que era isso que mais o admirava no “velho” Kant: seus adversários jamais tinham como resposta o silêncio. E o melhor exemplo disso é o escrito “sobre a expressão corrente isso pode ser correto na teoria mas nada vale na prática”,onde responde com ênfase a certas críticas feitas na época por um certo senhor Garve. Também boa parte de seus escritos sobre filosofia da história foram, em grande parte, respostas a seu ex-aluno Herder.
Ocorre que, como boa parte dos críticos de Kant nunca leu Kant, eles não sabem que essas críticas já foram rebatidas pelo próprio mestre. E repetem-se velhas objeções sem a menor consistência. Eles não sabem que as objeções, anunciadas como o ar “agora eu te peguei”, já haviam sido feitas há mais de 200 anos, bem como respondidas. Nesse contexto de caos e insanidade ganhou fama um trecho de uma palestra de Ariano Suassuna ( ver http://br.youtube.com/watch?v=48gOatpfIIw) em que ele diz que era fácil para Kant dizer que um copo não é um copo, mas queria ver Kant dizer na frente de uma onça”. Vá la. Tem certa graça.Tanto que a platéia riu bastante. Mas só tem graça para quem não sabe o erro crasso em que Ariano ocorreu. É a velha história de que Kant teria “criado o relativismo”.Ora, contra esse pensamento gostaria de citar duas passagens de dois autores insuspeitos: Searle e Merleau-Ponty:
Afirma Searle:
Os ataques ao realismo externo não são novidade. Eles existem há muitos séculos.Talvez o mais famoso seja a alegação de Berkeley de que aquilo em que pensamos como objetos materiais são na verdade, apenas conjuntos de “idéia”, isto é, estados de consciência. E de fato, esta tradição chamada de “idealismo” ou de fenomenismo, ainda persiste no século XX. (...) Provavelmente o idealista mais influente de todos os tempos foi Georg Friedrich Hegel. O princípio básico do idealismo é que a realidade, no final de contas, não é uma questão de algo existir independente de nossas percepções e de outras representações. Em vez de pensarmos que nossas afirmações da verdade dependem da de uma realidade que existe de forma independente, fazemos com que a realidade dependa de nossas próprias representações. Acredito que a posição mais sofisticada da posição idealista pode ser encontrada da filosofia de Immanuel Kant que acreditava que pensava que aquilo que chamava de “mundo fenomenal” (...) consistia inteiramente em nossas representações (...) A diferença entre Kant e outros idealistas como Berkeley é que os outros pensavam que as aparências – ou como Berkeley as chamava “idéias” – são a única realidade, enquanto pensava que, além das aparências, existe por trás das aparências uma realidade das coisas em si, da qual não podemos ter nenhum conhecimento. [1]
A segunda posição que gostaríamos de expor é a do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Ponty afirma, comentando Kant, que:
(...) se existem apenas fenômenos humanos, não há mais nada que possa servir como termo de referência. Esse relativismo se tomado a sério acaba por inverter-se. Esses fenômenos, aos quais tenho acesso, são uma construção, mas esta não é arbitrária.[2]
Quer dizer, de uma maneira ou de outra, ambos distanciam Kant do relativismo total em que nos encontramos hoje. Ao revés. A obra kantiana possui bons argumentos contra ela, como uma leitura de crítica da razão prática deixa claro.
Aliás, isso é uma coisa curiosa: metade dos críticos de Kant o acusa de instaurar o relativismo. A outra metade o acusa de um excesso de formalismo que o impedia de ver as “múltiplas possibilidades de verdade que o mundo dispõe”. Proponho uma arena com as duas correntes. Quem sabe assim elas não se esmagam com seus argumentos superficiais?
O que choca é a seriedade com que uma frase tão batida e tão errada do ponto de vista epistemológico vem sendo levada tão a sério. Claro que há certo viés estratégico: é mais fácil falar uma gracinha qualquer (com chance de ganhar risos do ouvinte e fazer crer ao interlocutor que você sabe alguma coisa sobre Kant) do que passar horas lendo Kant de verdade com risco de entender muito pouco. Já vi a frase citada em horas inesperadas e inadequadas. Citar essa frase em artigo acadêmico, por exemplo, é a mesma coisa que citar uma frase de Renato Aragão sobre fenomenologia do espírito. “ô da poltrona, saí dessa leseira e vamos discutir a noção de totalidade em Hegel! ”Ou então” vamos entrar nesse mundo de luzes e cores que é a dialética hegeliana”. Não combina. Não que artistas não possam fazer bons diagnósticos sobre filósofos.Pelo contrário. Fernando Pessoa tem uma profunda relação com a obra kantiana, por exemplo,como podemos ver em alguns poemas (Entre Kant e Hegel alguma coisa se perdeu, afirmaria seu heterônimo Álvaro de Campos). André Ordoñez mostrou com maestria essa relação em Fernando Pessoa: Um místico sem fé. Mas há uma diferença enorme entre o maior poeta de todos os tempos e uma dramaturgo mediano. Ali, Ariano, tentando parecer ser engraçado, foi apenas um palhaço bufão de quinta categoria. Não é preciso insistir muito na falta de conhecimento filosófico de Suassuna. A frase dele, tão engraçada quanto certa cenas de A turma do Didi, mostra por si só.
No fim das contas, se tivermos alguma dúvida sobre Kant, melhor que recorrer a Suassuna é recorrer ao seu personagem João Grilo. Com sua esperteza peculiar ele talvez faça um comentário mais profundo que seu criador. Ou quem sabe ao mentiroso Chicó, que dirá que uma vez teve com Kant sim, e ao ser perguntando "como", dirá " não sei, só sei que foi assim"...tão maroto quanto seu criador.

[1] SEARLE, John. Mente linguagem e sociedade: filosofia no mundo real Rio de Janeiro: Rocco, 2000. p 24-25.Grifo nosso.
[2] Merleau-Ponty, Maurice. A natureza. São Paulo: Martins fontes. 2000. p 32-33. Grifo nosso.

O fim, por Reinaldo Santos Neves.

Diogo Mainardi sempre diz que a literatura brasileira só tem um escritor: Machado de Assis. Eu acho que tem dois: Machado de Assis e Reinaldo Santos Neves. E não tem nada a ver com ele ser capixaba. O fato de ele ser capixaba como eu é mera coincindência.Gostaria de sua obra da mesma forma sudanês, jamaicano ou francês.Não gosto e nem desgosto de nada por meras coincidências.
Ao fim da minha monografia li, mais uma vez, seu livro sueli: romance confesso.Encotrei la um trecho que descrevia com exatidão meu sentimento em relação a minha monografia.Com a palavra, Senhor Reinaldo Santos Neves:
(...) um último toque de capricho desse poeta que é o acaso.Sim, tudo isso era para ser escrito, com riqueza de detalhes e artíficio,mas Tália está cansada,e eu também.Não tenho mais ânimo, energia, coragem disposição, paciência, amor, não tenho mais conteúdo para investir nesse romance confesso.Tudo que quero é agora deixar para trás sua difícil companhia: tempo já não é de cada qual seguir seu lado.Posso até,de vez enquanto, vir a lembrar-me com certa nostalgia dos dias em que estive a serviço deste romance, ajundando-o como autor a se escrever: mesmo afastado, mesmo sem ter a ver com ele nunca hei de esquecer o romance chamado Sueli, de Reinaldo Santos Neves.Mas agora chega: o romance extraiu de mim tudo que pôde: estou seco e estéril. Assim, já que estou acabado para o romance, para mim o romance está acabado também.Nem mais uma palavra seja aqui dita por escrito, a não ser- imprima-se.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

XI Colóquio Kant da UNICAMP

Já está marcada a data do XI Colóquio Kant da UNICAMP. Trata-se um dos mais tradicionais e importantes eventos sobre filosofia e sobre Kant do país. Provavelmente é o mais acirrado também. Melhor que eu, sobre o colóquio, fala Andrea Faggion, uma das coordenadoras do evento:
Eu parabenizo Zeljko Loparic por ter trazido da Alemanha Wolfgang Carl, um dos maiores kantianos vivos, sabendo se tratar de um feroz opositor seu, justamente com o único intuito de ouvir suas críticas e procurar rebatê-las em público. Eu parabenizo João Carlos Brum Torres por ter proclamado não respeitar Kant diante da plenária do Congresso da Sociedade Kant, acrescentando que só queria avaliar como resolver certos problemas usando Kant. Eu parabenizo meus amigos Julio Esteves e Aguinaldo Pavão por terem dado um show de filosofia buscando reciprocamente desmontar suas teses diante de uma platéia maravilhada e, por que não dizer, emocionada com o que via. Eu parabenizo a cada uma das pessoas, incluindo a mim mesma, que tiveram a ousadia de pegar o microfone em Campinas e defender suas teses, sabendo que não encontrariam a condescendência covarde comum em outras platéias. Parabéns, meus amigos, e até 2009...
De fato o que vemos em vários congressos é dois para cá e dois para lá: meia dúzia de bobagens para cá,meia dúzia de palmas para lá. O Congresso de Campinas me lembrou, desde as primeiras horas (uma discussão de elevado nível entre Loparic e Heck, onde entraram também Joãosinho e Julio Esteves) uma famosa frase de Jim Morrissom: daqui ninguém sai vivo.
2009 chegou e aqui estamos, ansiosos pelo evento desse ano. Informações abaixo:
XI COLÓQUIO KANT DA UNICAMP
1781: Kant diante dos Problemas da Razão Teórica
Data: 03 a 06 de agosto de 2009 Local: Auditório do IFCH/Unicamp

Conferencistas Confirmados:
Aguinaldo Pavão (UEL)
Andrea Faggion (UEM)
Christian Hamm (UFSM)
Daniel Omar Perez (PUC-PR/CNPq)
Frederick Rauscher (Universidade de Michigan)
João Carlos Brum Torres (UFRS)
Joãosinho Beckenkamp (UFPel)
José Nicolau Heck (UFG-CNPq/UCG)
José Oscar de Almeida Marques (Unicamp)
Juan Bonaccini (UFRN)
Julio Cesar Ramos Esteves (UENF/CNPq)
Mario Caimi (Universidade de Buenos Aires)
Orlando Bruno Linhares (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
Patricia Maria Kauark Leite (UFMG)
Paulo Licht dos Santos (UFSCar)
Robert Hanna (Universidade do Colorado)
Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Unesp)
Vera Cristina de Andrade Bueno (PUC-RJ)
Zeljko Loparic (Unicamp/PUC-SP/PUC-RS)

Chamada para Comunicações:
As propostas de comunicações devem ser enviadas para o endereço eletrônico: andreafaggion@yahoo.com.br até o dia 30 de abril de 2009. Não é necessária, porém, é desejável a coincidência temática com a Crítica da Razão Pura. Os textos devem ser adequados a uma comunicação de 20 minutos (sem exceções). Além do texto integral, os arquivos devem conter: nome do autor, email para contato, instituição de origem, orientador (se for o caso), resumo, palavras-chave e referências bibliográficas. Regras para formatação: parágrafo 1,5, fonte Times New Roman 12.

Congresso Internacional sobre Habermas na Paraíba.


Tenho a impressão de que Habermas é supervalorizado por essas bandas.

Entre uma palestra de Javier Herrero e uma palestra de Habermas, por exemplo, assistiria a de Herrero. O mesmo se diga de Loparic. Mas vá lá. Parafraseando Carlos Drummond, ainda acho que o problema pode ser do meu ouvido. Uma boa chance para tirar dúvida é o grande evento quer será realizado na Paraíba.

Informações sobre o evento:


Em João Pessoa -Paraíba, 16 a 18/09/2009 acontece:


HABERMAS 80 ANOS - CONGRESSO INTERNACIONAL O congresso busca prestar uma homenagem a JÜRGEN HABERMAS pelos seus produtivos 80 anos. Habermas representa a continuidade dos ideais da Escola de Frankfurt, que a partir das análises da teoria da sociedade desenvolvida segundo uma mudança de paradigma por ele introduzida, revigorou as análises das patologias da sociedade capitalista do século XX, e que, no presente estado de desenvolvimento da sociedade global se apresenta ainda com todo vigor e vigência. Na oportunidade, o congresso pretende reuinir gerações de pesquisadores que, a partir da obra de Habermas, desevolveram críticas e análises de aspectos relevantes do mundo contemporâneo.


Realização GP Hermes/CNPq para maiores informações, visite


sábado, 17 de janeiro de 2009

NÃO TEM KANT

Recentemente um dos meus amigos chegou perto de mim rindo descontroladamente. Imediatamente fui tomando por uma imensa preocupação. Dado o fato de ser ele um admirador de Nietzsche e Foucault, imaginei logo que sua alegria só poderia ter como causa como um holocausto ou coisa pior. Na verdade a causa de sua rara alegria era bem mais prosaica. Um vídeo disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=ak_HAAmBm3w. Trata-se uma cena que um homem tanta mostrar sua invenção ao rei: o futebol. Mas sempre que tenta explicar algo é interrompido pelo rei que insere um cavalo na história. E ai vem a graça da história, que é o bordão:
- NÃO TEM CAVALO!
Às vezes o bordão vem precedido por explicações comedidas mais igualmente impacientes, do tipo:
- Meu amigo, já expliquei para você algumas vezes... Não tem cavalo... é só você prestar um pouquinho de atenção que vai dar tudo certo...
A situação em si não me despertaria tanta atenção, até por que anos antes a série mexicana Chaves teve um episódio com uma cena semelhante, só que usando biscoitos: http://www.youtube.com/watch?v=tm3WlVNIbF8. Mas o vídeo do rei me chamou atenção por uma situação particular. Desde minha participação no X Colóquio Kant de Campinas e mais ainda desde que comecei a me dedicar com mais afinco à minha monografia (Direito, razão e história: a caracterização kantiana da modernidade) eu me converti no rei e todos os escritores que leio viraram o inventor do futebol. Qualquer que seja o livro que eu pegue, eu pergunto ao autor:
-Esse livro é sobre Kant?
E ele responde:
- Não... Ele conta histórias, mas nenhuma sobre Kant.
Daí aparece um personagem. Quando começa a descrição eu logo pergunto:
- Seria Kant?
- Não..., não tem Kant !!!!
E se fala que o personagem era um homem honrado, é inevitável:
- E ele lia Kant???? Lia????
-NÃO...NÃO TEM KANT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas ai eu mudo repentinamente. E ai pergunto seriamente:
Mas houve mesmo algum texto importante após 1790 sem Kant?
Tomemos como exemplo o amigo do meu amigo: Foucault. Foucault talvez seja a princípio o menos kantiano dos pensadores do século XX (e fique claro: isso não é um elogio!).Pois em um certo dicionário de filosofia apareceu o seguinte verbete para Foucault: “Se Foucault se inscreve na tradição filosófica, é na tradição crítica, que é a de Kant” . O verbete é assinado por Maurice Florence. Quem é Maurice Florence? Ninguém. A não ser um pseudônimo do próprio... Michel Foucault !!!
E Hegel? Crítico de Kant? Mas o Javier Herrero bem notou: Hegel só pôde pensar a história como pensou por Kant lhe abriu as perspectivas (ou usando a terminologia de Willian Blake: as portas da percepção). Para completar: um dos filhos de Hegel foi batizado de..Immanuel!!!! Seria uma tentativa de ser, finalmente e incontestavelmente superior a um Immanuel? Hummm...prato cheio para Freud, que aliás era leitor de Kant! Em sua biblioteca havia pelo menos 3 livros de Kant[1]: Antropologia de um ponto de vista pragmático, escritos menores sobre a filosofia da natureza e , claro, a Crítica da razão pura. Há varias citações de Kant nos escritos de Freud, inclusive a famosa frase “ duas coisas me enchem de orgulho, o céu cheio de estrelas acima de mim e a lei moral em mim”, Não há noticias de que ele tenha lido “ a religião nos limites simples da razão” mas certamente teria ficado impressionado com a teoria do mal radical. Ou teria lido e ocultado para não ofuscar sobre suas descrições sobre a pulsão de morte?? Mesmo Nietzsche é descrito por Deleuze como o verdadeiro herdeiro da crítica kantiana.
A essa altura me lembro de uma passagem do quadrinho Sandman, na série estação das brumas. É a série em que Lúcifer abandona o inferno. Ela se encerra com Lúcifer numa praia da Austrália. Chega um hippie que representa Deus. Ele faz várias menções à beleza do pôr-do-sol. Quando ele se levanta fala: “diga o que quiser, mas um Ser que faz algo bonito como o pôr-do-sol tem que ser respeitado.” Quando ele vai embora. Lúcifer ri e diz “O pôr-do-sol é mesmo maravilhoso seu velho desgraçado.” Agora sou o velho hippie e Foucault é Lúcifer. Eu falo com ele “diga o que quiser, mas alguém que escreve um livro como a crítica da razão pura...que faz um sistema como que Kant fez...tem que ser venerado”. Em um escrito Foucault diz em que certo sentido todos somos neokantianos. É ele me chamando de desgraçado e dizendo que a obra kantiana é mesmo maravilhosa.
Tem Kant ou não tem Kant??





[1] A lista dos livros que Freud tinha está disponível no Museu Freud. Sobre a influência de Kant em Freud há um bom artigo disponível na internet. O autor é Leopoldo Fulgêncio e o site é: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642001000100004&lng=pt&nrm=iso