Recentemente um dos meus amigos chegou perto de mim rindo descontroladamente. Imediatamente fui tomando por uma imensa preocupação. Dado o fato de ser ele um admirador de Nietzsche e Foucault, imaginei logo que sua alegria só poderia ter como causa como um holocausto ou coisa pior. Na verdade a causa de sua rara alegria era bem mais prosaica. Um vídeo disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=ak_HAAmBm3w. Trata-se uma cena que um homem tanta mostrar sua invenção ao rei: o futebol. Mas sempre que tenta explicar algo é interrompido pelo rei que insere um cavalo na história. E ai vem a graça da história, que é o bordão:
- NÃO TEM CAVALO!
Às vezes o bordão vem precedido por explicações comedidas mais igualmente impacientes, do tipo:
- Meu amigo, já expliquei para você algumas vezes... Não tem cavalo... é só você prestar um pouquinho de atenção que vai dar tudo certo...
A situação em si não me despertaria tanta atenção, até por que anos antes a série mexicana Chaves teve um episódio com uma cena semelhante, só que usando biscoitos: http://www.youtube.com/watch?v=tm3WlVNIbF8. Mas o vídeo do rei me chamou atenção por uma situação particular. Desde minha participação no X Colóquio Kant de Campinas e mais ainda desde que comecei a me dedicar com mais afinco à minha monografia (Direito, razão e história: a caracterização kantiana da modernidade) eu me converti no rei e todos os escritores que leio viraram o inventor do futebol. Qualquer que seja o livro que eu pegue, eu pergunto ao autor:
-Esse livro é sobre Kant?
E ele responde:
- Não... Ele conta histórias, mas nenhuma sobre Kant.
Daí aparece um personagem. Quando começa a descrição eu logo pergunto:
- Seria Kant?
- Não..., não tem Kant !!!!
E se fala que o personagem era um homem honrado, é inevitável:
- E ele lia Kant???? Lia????
-NÃO...NÃO TEM KANT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas ai eu mudo repentinamente. E ai pergunto seriamente:
Mas houve mesmo algum texto importante após 1790 sem Kant?
Tomemos como exemplo o amigo do meu amigo: Foucault. Foucault talvez seja a princípio o menos kantiano dos pensadores do século XX (e fique claro: isso não é um elogio!).Pois em um certo dicionário de filosofia apareceu o seguinte verbete para Foucault: “Se Foucault se inscreve na tradição filosófica, é na tradição crítica, que é a de Kant” . O verbete é assinado por Maurice Florence. Quem é Maurice Florence? Ninguém. A não ser um pseudônimo do próprio... Michel Foucault !!!
E Hegel? Crítico de Kant? Mas o Javier Herrero bem notou: Hegel só pôde pensar a história como pensou por Kant lhe abriu as perspectivas (ou usando a terminologia de Willian Blake: as portas da percepção). Para completar: um dos filhos de Hegel foi batizado de..Immanuel!!!! Seria uma tentativa de ser, finalmente e incontestavelmente superior a um Immanuel? Hummm...prato cheio para Freud, que aliás era leitor de Kant! Em sua biblioteca havia pelo menos 3 livros de Kant[1]: Antropologia de um ponto de vista pragmático, escritos menores sobre a filosofia da natureza e , claro, a Crítica da razão pura. Há varias citações de Kant nos escritos de Freud, inclusive a famosa frase “ duas coisas me enchem de orgulho, o céu cheio de estrelas acima de mim e a lei moral em mim”, Não há noticias de que ele tenha lido “ a religião nos limites simples da razão” mas certamente teria ficado impressionado com a teoria do mal radical. Ou teria lido e ocultado para não ofuscar sobre suas descrições sobre a pulsão de morte?? Mesmo Nietzsche é descrito por Deleuze como o verdadeiro herdeiro da crítica kantiana.
A essa altura me lembro de uma passagem do quadrinho Sandman, na série estação das brumas. É a série em que Lúcifer abandona o inferno. Ela se encerra com Lúcifer numa praia da Austrália. Chega um hippie que representa Deus. Ele faz várias menções à beleza do pôr-do-sol. Quando ele se levanta fala: “diga o que quiser, mas um Ser que faz algo bonito como o pôr-do-sol tem que ser respeitado.” Quando ele vai embora. Lúcifer ri e diz “O pôr-do-sol é mesmo maravilhoso seu velho desgraçado.” Agora sou o velho hippie e Foucault é Lúcifer. Eu falo com ele “diga o que quiser, mas alguém que escreve um livro como a crítica da razão pura...que faz um sistema como que Kant fez...tem que ser venerado”. Em um escrito Foucault diz em que certo sentido todos somos neokantianos. É ele me chamando de desgraçado e dizendo que a obra kantiana é mesmo maravilhosa.
Tem Kant ou não tem Kant??
[1] A lista dos livros que Freud tinha está disponível no Museu Freud. Sobre a influência de Kant em Freud há um bom artigo disponível na internet. O autor é Leopoldo Fulgêncio e o site é: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642001000100004&lng=pt&nrm=iso
- NÃO TEM CAVALO!
Às vezes o bordão vem precedido por explicações comedidas mais igualmente impacientes, do tipo:
- Meu amigo, já expliquei para você algumas vezes... Não tem cavalo... é só você prestar um pouquinho de atenção que vai dar tudo certo...
A situação em si não me despertaria tanta atenção, até por que anos antes a série mexicana Chaves teve um episódio com uma cena semelhante, só que usando biscoitos: http://www.youtube.com/watch?v=tm3WlVNIbF8. Mas o vídeo do rei me chamou atenção por uma situação particular. Desde minha participação no X Colóquio Kant de Campinas e mais ainda desde que comecei a me dedicar com mais afinco à minha monografia (Direito, razão e história: a caracterização kantiana da modernidade) eu me converti no rei e todos os escritores que leio viraram o inventor do futebol. Qualquer que seja o livro que eu pegue, eu pergunto ao autor:
-Esse livro é sobre Kant?
E ele responde:
- Não... Ele conta histórias, mas nenhuma sobre Kant.
Daí aparece um personagem. Quando começa a descrição eu logo pergunto:
- Seria Kant?
- Não..., não tem Kant !!!!
E se fala que o personagem era um homem honrado, é inevitável:
- E ele lia Kant???? Lia????
-NÃO...NÃO TEM KANT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas ai eu mudo repentinamente. E ai pergunto seriamente:
Mas houve mesmo algum texto importante após 1790 sem Kant?
Tomemos como exemplo o amigo do meu amigo: Foucault. Foucault talvez seja a princípio o menos kantiano dos pensadores do século XX (e fique claro: isso não é um elogio!).Pois em um certo dicionário de filosofia apareceu o seguinte verbete para Foucault: “Se Foucault se inscreve na tradição filosófica, é na tradição crítica, que é a de Kant” . O verbete é assinado por Maurice Florence. Quem é Maurice Florence? Ninguém. A não ser um pseudônimo do próprio... Michel Foucault !!!
E Hegel? Crítico de Kant? Mas o Javier Herrero bem notou: Hegel só pôde pensar a história como pensou por Kant lhe abriu as perspectivas (ou usando a terminologia de Willian Blake: as portas da percepção). Para completar: um dos filhos de Hegel foi batizado de..Immanuel!!!! Seria uma tentativa de ser, finalmente e incontestavelmente superior a um Immanuel? Hummm...prato cheio para Freud, que aliás era leitor de Kant! Em sua biblioteca havia pelo menos 3 livros de Kant[1]: Antropologia de um ponto de vista pragmático, escritos menores sobre a filosofia da natureza e , claro, a Crítica da razão pura. Há varias citações de Kant nos escritos de Freud, inclusive a famosa frase “ duas coisas me enchem de orgulho, o céu cheio de estrelas acima de mim e a lei moral em mim”, Não há noticias de que ele tenha lido “ a religião nos limites simples da razão” mas certamente teria ficado impressionado com a teoria do mal radical. Ou teria lido e ocultado para não ofuscar sobre suas descrições sobre a pulsão de morte?? Mesmo Nietzsche é descrito por Deleuze como o verdadeiro herdeiro da crítica kantiana.
A essa altura me lembro de uma passagem do quadrinho Sandman, na série estação das brumas. É a série em que Lúcifer abandona o inferno. Ela se encerra com Lúcifer numa praia da Austrália. Chega um hippie que representa Deus. Ele faz várias menções à beleza do pôr-do-sol. Quando ele se levanta fala: “diga o que quiser, mas um Ser que faz algo bonito como o pôr-do-sol tem que ser respeitado.” Quando ele vai embora. Lúcifer ri e diz “O pôr-do-sol é mesmo maravilhoso seu velho desgraçado.” Agora sou o velho hippie e Foucault é Lúcifer. Eu falo com ele “diga o que quiser, mas alguém que escreve um livro como a crítica da razão pura...que faz um sistema como que Kant fez...tem que ser venerado”. Em um escrito Foucault diz em que certo sentido todos somos neokantianos. É ele me chamando de desgraçado e dizendo que a obra kantiana é mesmo maravilhosa.
Tem Kant ou não tem Kant??
[1] A lista dos livros que Freud tinha está disponível no Museu Freud. Sobre a influência de Kant em Freud há um bom artigo disponível na internet. O autor é Leopoldo Fulgêncio e o site é: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642001000100004&lng=pt&nrm=iso
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